O fim das divergências com os filtros-bolha.
Quem interage somente com quem concorda consigo, cai na ilusão de que a sua forma de pensar é predominante.

O fim das divergências com os filtros-bolha.

Quando interagimos somente com quem está de acordo com nossas opiniões, além de perdermos a chance de conviver com pensamentos divergentes, caímos na ilusão de que nossa forma de pensar é predominante.

E este é apenas um dos efeitos colaterais da “filtros-bolha” (filter bubbles), conceito criado pelo ativista de internet Eli Pariser para definir o sistema de algoritmos que, a partir do comportamento online, elabora o perfil de cada usuário e personaliza o fornecimento de conteúdos de acordo com este perfil. Com isso, as informações que recebemos tendem a ter um viés semelhante ao dos perfis que tradicionalmente frequentamos.

Em tempos tão dinâmicos não deixa de ser um anacronismo ter nosso perfil para coleta de novas informações formatado a partir do nosso comportamento no passado. E se há até pouco tempo a qualidade das informações que obtínhamos junto aos veículos de comunicação tradicionais dependia da competência e da ética de editores humanos que estavam sujeitos à crítica pública e de suas próprias consciências, na internet ela está atrelada a algoritmos frios que tendem manter o status quo intelectual de cada usuário sem questionamentos ou autocríticas.

Assim o usuário da internet não toma conhecimento das informações que ficaram de fora do cardápio que lhe é oferecido, limitando o que ele consegue ver do mundo. E Pariser vai mais longe, ao dizer que: “Um mundo construído a partir do que nos é familiar é um mundo onde não há nada para aprender, uma vez que se trata de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com nossas próprias idéias.”

Ele também alerta que algoritmos invisíveis editando a web podem limitar nossa exposição a novas informações e estreitar nossos pontos de vista, tornando as pessoas mais vulneráveis à propaganda e à manipulação. Estamos correndo o risco de nos tornarmos uma sociedade que só ouve e vê o que agrada, criando uma fragmentação na qual o mundo que cada um de nós vê se parece cada vez mais com o nosso próprio mundo, no qual ficaremos isolados com o eco de nossa própria voz.

Quem interage somente com quem concorda consigo, cai na ilusão de que a sua forma de pensar é predominante.

De onde os eleitores democratas tinham tanta certeza de que Donald Trump não se elegeria?

Os filtros de busca na internet estão se tornando um mecanismo de reprodução das nossas próprias ideias, comprometendo uma das maiores qualidades da rede, que é o de se encontrar o que não está se procurando. Além disso, os filtros personalizados nos mostram conteúdos similares aos que mais acessamos. E muitas vezes estes links são bobagens que clicamos por curiosidade ou diversão, mas que são levados ao topo pelos algoritmos, deixando os conteúdos mais densos e menos acessados para trás. Nas palavras de Pariser, em vez de termos uma dieta balanceada de informação, ficamos apenas com a gordura e o açúcar.  Entra em cena a velha questão das recompensas imediatas e de longo prazo.

Pariser nos alerta que não é fácil escapar desta armadilha, uma vez que o monitoramento vai desde os cliques que damos, até o tipo de computador que usamos e a posição geográfica que nos encontramos. Mas uma das possibilidades é diversificar ao máximo o foco dos nossos interesses na web, evitando acessar sempre os mesmos sites ou buscar sempre os mesmos assuntos. Uma dica válida tanto em nível pessoal como profissional, pois o convívio com a diversidade é que proporciona o crescimento.

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