A logística de shows tem sua origem na Europa medieval, quando saltimbancos viajavam de um povoado a outro apresentando atrações diversas que incluíam teatro, dança, malabarismos e números cômicos. Era uma época em que estruturas de apoio e equipamentos cenográficos precisavam ser simples e resistentes para suportar longas jornadas através de caminhos precários em carroças de tração animal.

As atrações itinerantes foram evoluindo até que, no século XVIII, surge o circo no formato que conhecemos hoje, com um expressivo aumento da complexidade dos materiais a serem transportados, em um período em que ainda se dependia dos cavalos para o transporte e que sequer havia energia elétrica.

Se a realidade atual é bem diferente no que se refere aos recursos disponíveis para armazenagem e transporte nos mais diferentes modais, por outro lado a complexidade da estrutura de shows aumentou exponencialmente.

Para ficarmos no exemplo circense, na sua turnê de 2013 na América Latina, o Cirque do Soleil chegou a utilizar mais de mil toneladas de equipamentos, transportados em uma centena de caminhões. Como se trata de uma atração intercontinental, o planejamento logístico precisa prever, muitas vezes, a combinação de vários modais para realizar a operação de transporte.

Já as atrações musicais sentem o reflexo de uma nova realidade gerada pela popularização da internet e a consequente queda das vendas de CDs: a necessidade cada vez maior de cair na estrada para gerar receita com a venda de ingressos.

Porém, diferentemente de décadas passadas, quando bastava aos fãs ver seu artista preferido em um palco espartano com sérios problemas de acústica, atualmente o nível de exigência do público aumentou muito, alimentado pelos home theaters e aparelhos de televisão com tela gigante que hoje são comuns em suas residências. Desta forma o nível de qualidade dos shows e, por consequência, a quantidade de equipamento transportado, aumentou significativamente.

Alguns artistas internacionais já investem já décadas em megaespetáculos, como U2, Madonna e Rolling Stones, e festivais como o Rock In Rio e Lollapalooza. Essas atrações têm na inteligência logística um dos pilares do seu sucesso. Além das centenas de veículos que transportam os equipamentos, uma rígida organização é necessária para que cada cabo seja conectado em seu devido lugar, assim como todos os elementos que fazem um show acontecer.

Mas quem assiste a um show impecável, com imagens e som de altíssima qualidade e onde tudo funciona sem falhas, não imagina a quantidade de detalhes que envolve a operação logística de um espetáculo deste porte. Afinal, os problemas na logística de uma turnê podem comprometer a rentabilidade do empreendimento e arranhar a credibilidade do artista junto ao seu público. Por isso, os responsáveis por grandes atrações não deixam espaço para amadorismo e contratam empresas de transporte e logística especializadas.

O processo geralmente começa com um estudo das rotas a serem cumpridas e a determinação dos modais para o transporte dos equipamentos. Embora a predominância seja o transporte rodoviário, quando há a previsão de espetáculos em outros países, são utilizadas vias aéreas ou marítimas. Além disso, os empresários lgados a shows de alto nível também se deparam com uma série de entraves burocráticos para conseguir a liberação de acesso a fronteiras internacionais, o que torna a operação ainda mais complexa.

O profissionalismo também compreende o armazenamento e transporte, que utiliza desde cases especialmente projetados para embalar equipamentos ainda no palco, até a escolha do veículo de acordo com o tipo de carga a ser transportada. Os caminhões em geral são rastreados 24 horas por dia, tanto por questões de segurança, quanto para o auxílio na tomada de decisões para administrar possíveis atrasos.

Ainda existem os desafios pertinentes às centenas de pessoas envolvidas no processo, como passagens aéreas, hospedagem e alimentação. Sem falar na gestão dos imprevistos que devem sempre ser contornados, afinal o show não pode parar.

Embora vivamos em um mundo cada vez mais conectado e virtual, os shows estão adquirindo uma proporção inédita, fazendo com que toneladas de equipamentos e centenas de pessoas sejam deslocados de um continente a outro em curtos espaços de tempo. Com certeza a logística faz parte deste espetáculo.

(matéria publicada na primeira edição da Revista Multi da empresa MultiArmazéns)

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