Tudo que é sólido, estável e previsível está ultrapassado.

Muitas vezes neologismos e conceitos são criados para dar um verniz de ineditismo e modernidade para elementos não tão novos assim. Não é o caso da “modernidade líquida”, conceito criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman que apresenta uma nova visão sobre a modernidade, voltada à fluidez das relações, ao individualismo e ao consumo.

Trata-se da definição de uma mudança tão óbvia e tão rápida que chega a impactar até pessoas que recém cruzaram a fronteira dos 20 anos.

Estamos ingressando em um modelo de sociedade imediatista, onde o tempo conta mais que o espaço e em que tudo que é sólido, estável e previsível é considerado ultrapassado e retrógrado. Nesta nova realidade as instituições sofrem um “derretimento”, sendo substituídas por objetivos individuais.

E o individualismo é o papel principal de uma liberdade ilusória onde os indivíduos não possuem controle sobre os seus destinos. Uma imprevisibilidade muito diferente das sociedades industriais do século passado, onde o roteiro funcional era estático e permanente. Hoje vigora um novo sentido de ordem capitalista que Baumam compara a um rio de águas turbulentas e sem leito definido onde muitas vezes as pessoas comuns se afogam.

Segundo Bauman, esta é uma sociedade que não se posiciona nem se auto-questiona, porém está dentro de um contexto evolutivo que desmonta e remodela crenças com uma velocidade estonteante.

O resultado é a proliferação do comportamento mais nocivo desta sociedade: o consumo desenfreado onde se compra não apenas produtos e serviços, mas também modelos de personalidades e de relacionamentos. Desta forma a sociedade passa a assumir um papel de consumidora e não mais de produtora, e os elementos que em determinado momento representam ostentação em pouco tempo passam a ser indispensáveis para as pessoas que deixam de adquirir bens para se tornarem escravos deles.

E neste contexto o presente é encarado como deficitário e incompleto, já que ele nada mais é do que a promessa de um futuro grandioso. Por isso ele deve ser vivenciado sem perda de tempo em um ritmo que não permite reflexões sobre ações individuais ou coletivas.

Zygmunt Bauman compara esta sociedade com um circo onde atores sem papel precisam de circunstâncias momentâneas de encenação e não criam nada mais do que a excitação do desempenho que deve ser fugaz como o cheiro das coisas novas, dos produtos consumidos.  Uma superficialidade e efemeridade que se estende aos relacionamentos pessoais.

É claro que Bauman imprime tons sombrios a este conceito de liquidez, e não estou em desacordo quando se refere ao individualismo, superficialidade e consumismo.  Mas me permito ver o lado iluminado desta nova sociedade, principalmente quando pensamos no desapego a estruturas arcaicas, na maior aceitação das diferenças e na maior diversidade de opções em diversos aspectos da vida. Hoje quem tem um mínimo de discernimento e reflete a respeito da realidade que nos cerca tem mais possibilidades de buscar a sua evolução e de repercutir o seu ponto de vista.

 

Zygmunt Bauman (1925/2017) sociólogo polonês com mais de dezesseis obras publicadas no Brasil, dentre as quais Modernidade Líquida, Vida para Consumo e Vidas Desperdiçadas.

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