A genialidade de um artista que conquistou o mundo mantendo os pés na sua aldeia em entrevista realizada para a segunda edição da Revista Multi.

Flávio Scholles nasceu em São José do Herval, localidade bucólica que pertence ao pequeno município de Morro Reuter, a 64km de Porto Alegre/RS. Teve uma infância difícil na qual já manifestava um talento precoce para as artes, mesmo sem ter acesso a livros, revistas ou qualquer tipo de referência para guiar a sua genialidade latente.

Sua criatividade, talento e inquietude geraram uma obra com mais de oito mil peças, a maior parte tendo como base a história dos habitantes do Vale do Rio do Sinos, e que conquistou reconhecimento nacional e internacional. Nossa conversa informal aconteceu em uma ensolarada manhã de sábado no seu atelier de aura mística, construído sobre uma colina que fica próxima ao seu local de nascimento.

Leandro Corrêa – Grande parte da sua obra retrata os imigrantes alemães, sua cultura e seu cotidiano no Vale do Sinos. Existe algum motivo particular para a escolha deste tema?

Flávio Scholles – Quando eu ainda estava na Faculdade de Artes, após assistir a uma aula da matéria de Folclore, percebi que a globalização estava resultando em um “patrolamento cultural” do planeta e que era preciso valorizar as diferenças para resgatar o colorido de cada cultura. Se eu queria falar para o mundo, precisava falar da minha aldeia e a partir daí decidi apresentar o Vale do Sinos para o mundo. Na época em que saí da colônia para estudar na cidade, havia a pressão para trocar a cultura alemã pela brasileira, mas quando me dei conta da singularidade cultural da nossa colônia, entendi que ela não encontra paralelo em nenhum outro lugar e que por isso precisa ser preservada e divulgada. Um exemplo é a música das bandinhas, que possuem uma alegria criada aqui e que não existe na versão original alemã.

LC – Após sua obra conquistar reconhecimento internacional e surgirem tantas oportunidades para residir nas capitais do Brasil e do exterior, poque a opção de permanecer próximo às suas raízes?

FS – Fui um dos fundadores da Casa Velha, movimento que durou de 1977 a 1979 que criou a ideia de fixar o artista no seu lugar de origem, sua aldeia. Já naquela época eu tinha noção de que se você quer retratar uma realidade precisa estar próximo a ela. Depois disso me tornei um cidadão do mundo e tive a oportunidade de viver em diversos lugares, mas sempre fiz questão de retornar às minhas origens.  A internet contribuiu muito para tornar esta opção possível.

LC – Você fala que nossa civilização está em um estágio evolutivo que nos define como “primatas do universo”.  Como surgiu este conceito?

FS – No princípio Deus falava com os homens através da arte. A civilização grega mudou esse conceito ao introduzir a arte acadêmica, tornando-a racional. Agora estamos vivendo em uma era em que tudo é arte. Deus e homem andam juntos na arte e pela primeira vez estamos enfeitando o planeta. E a minha tese é de que isso está ocorrendo para podermos começar a nossa caminhada pelo universo. Estamos na pré-história do homem no universo, somos os primatas do universo. Meu trabalho, com sua temática sobre o Vale do Sinos, busca emitir os primeiros sinais para uma comunicação universal através de uma instalação com milhares de quadros espalhados pelo planeta.

LC – Isto nos leva a uma definição muito interessante das suas obras que são chamadas de “os quadros que falam”. 

FS – Há alguns anos eu fui convidado a expor na Universidade de Trier, na Alemanha. Dois repórteres que estavam cobrindo o evento publicaram uma matéria com o título “Quadros que falam”. Foi surpreendente porque eles conseguiram traduzir algo que sempre esteve presente na minha obra. Na verdade se trata da nova comunicação universal, a comunicação pelo olhar que pode ser entendida por todas as inteligências do planeta ou de fora dele. Trata-se de um novo tipo de arte que é fruto de uma condição muito particular da nossa região, já que aqui nós tínhamos o mítico dos índios caigangues, o místico da raça negra e o racionalismo dos imigrantes europeus, fatores que são o tripé da globalização. Em termos de arte, os quadros que falam são precursores deste início de caminhada do ser humano pelo universo. Estou muito feliz por criar os quadros que falam.

LC – E que transformações estão em curso neste início de caminhada? 

FS – Como eu disse anteriormente, a civilização grega implantou o racionalismo nas artes. Porém esta influência racional e masculinizada permeou todos os campos da humanidade por séculos. Hoje se percebe um movimento global do masculino para o feminino, o que abre caminho para ideias novas e a substituição da palavra falada pela inteligência intuitiva. Vejo a eleição de sete prefeitas mulheres no Vale do Sinos como um sinal deste novo tempo (nas eleições municipais de 2016, foram eleitas prefeitas para as cidades de Santa Maria do Herval, Ivoti, Dois Irmãos, Estância Velha, Sapiranga, Morro Reuter e Novo Hamburgo). Deus está de olho em nós e por isso precisamos despertar para este novo tempo para sermos felizes.

LC – Para finalizar, quais são suas ambições nesta etapa da sua carreira? 

FS – Já fui reconhecido internacionalmente e hoje vejo a dimensão do meu trabalho. Não quero ser mais famoso, mas espero que minhas obras conquistem cada vez mais espaço e se perpetuem. Minhas ideias são revolucionárias, mas o que eu quero sempre é pintar mais um quadro.

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