Por onde anda a surpreendente arquitetura de contêineres

Quando o caminhoneiro americano Malcolm McLean imaginou o conceito de contêiner em 1937, ele tinha em mente eliminar o desperdício de tempo a que ele e seus colegas de profissão tinham que ser submetidos enquanto aguardavam que as cargas fracionadas eram retiradas dos seus caminhões e embarcadas nos navios.

A ideia só foi posta em prática em 1956 e, desde então, todos os contêineres são fabricados dentro de medidas padrão que ocupam 2,44 metros de largura por 2,59 metros de altura e 6,06 ou 12,192 metros de comprimento. São estruturas de aço leves, extremamente resistentes e produzidas visando um encaixe perfeito, o que permite o empilhamento de até 12 unidades quando vazias. A sua aceitação foi tamanha que, nos dias de hoje, aproximadamente 90% do transporte mundial de mercadorias é feito por contêineres.

Mas este sucesso trouxe também um ônus. A vida útil de aproximadamente 10 anos e um custo para reenvio sem carga que não compensa a sua devolução frente ao baixo preço de uma nova unidade acabou criando cemitérios de contêineres abandonados nos países de tradição portuária ao redor do mundo.

A crescente disponibilidade a baixo preço aliada às características moduláveis chamaram a atenção de arquitetos e designers que viram também nos contêineres uma opção para a construção civil que traz benefícios ao homem e à natureza, além de agregar modernidade e criatividade para seus projetos.

Provavelmente Malcolm McLean não imaginou que sua invenção, que revolucionou a indústria de transportes em todo o mundo, um dia viria incorporar utilidades que vão desde abrigos temporários até escritórios e residências de alto padrão.

As vantagens da utilização de contêineres impressionam: aproveitamento de material nobre descartado, economia de recursos naturais (areia, tijolo, cimento, água, ferro etc.), menor geração de entulho, utilização de muito menos mão-de-obra, redução de custos com a fundação do que as construções tradicionais, custos menores e tempo de obra bastante reduzido, além de ter por princípio valores socialmente corretos como a reciclagem e a sustentabilidade.

Container City localizada na região portuária de Docklands em Londres.

Para poder ser utilizado como habitação ou escritório, o contêiner precisa passar por uma reforma que inclui o jateamento com um abrasivo para eliminação da tinta tóxica utilizada para resistir à sua vida marítima e a substituição do piso original, que contém defensivos químicos para controle de pragas. Depois desta descontaminação, o contêiner provavelmente precisará de cortes no aço para confecção de aberturas e trabalhos de soldagem realizados por mão-de-obra especializada. Porém, mesmo com estes investimentos, os seus defensores afirmam que a utilização de contêineres ainda traz economia de custos.

Entre os exemplos concretos da viabilidade do uso de contêineres na construção civil pode ser citado o projeto “Container City”, em Trinity Buoy Wharf – um centro de artes e indústrias criativas localizado no cais de Londres; a Keetwonen, maior vila de contêineres do mundo, com 1.000 casas para estudantes em Amsterdã, na Holanda e a Container City da cidade de Cholula, no México, que possui 5.000m² de área com a utilização de 50 contêineres transformados em bares, lojas, livrarias, galerias de arte, restaurantes, padarias e até hotéis.

Além disso, contêineres também são cada vez mais utilizados em atividades comerciais, como a “Puma City”, que tem viajado ao redor do mundo, a “Freitag Flagship Store”, localizada em Zurique, na Suíça e o quiosque do Illy Cafe.

Sustentável mas não tanto

As questões ambientais tomam corpo no mundo todo, fazendo com que cada vez mais pessoas estejam abertas a soluções alternativas que impliquem em reaproveitamento de materiais descartados, menor consumo de energia e redução de utilização de recursos naturais. Porém, alguns especialistas alertam que, eventualmente, o que se apresenta como alternativa ecológica, nem sempre é tão verde assim.

No caso específico da reutilização de contêineres, muitas vezes a quantidade de energia necessária para torná-lo habitável não é levada em conta. Como já foi citado, a estrutura precisa ser jateada com material abrasivo, produzindo dezenas de quilos de resíduo tóxico e o próprio deslocamento do contêiner com maquinaria pesada exige um considerável consumo de combustível fóssil.

Outra questão é que um contêiner individual não é suficiente para criar espaços habitáveis. Para tornar o ambiente adequado em tamanho, é necessário fazer a combinação de mais de uma caixa, o que, novamente, requer energia.

Em resumo, algumas correntes defendem que pode ser mais barato e mais racional em termos de consumo de energia, erguer uma construção similar utilizando uma estrutura com materiais convencionais. Casas de contêineres seriam mais apropriadas onde há escassez de recursos associada a uma grande disponibilidade destes equipamentos descartados. Também acreditam que os contêineres são mais adequados para o atendimento de necessidades imediatas de abrigo, como áreas afetadas por desastres.

Um fetiche da era moderna

O contêiner conquistou o mundo como uma alternativa prática, segura e barata para o transporte de mercadorias, mas justamente por ser padronizado e ter características como resistência e leveza, além de estar disponível em diversos lugares a baixo custo, acabou por chamar a atenção de arquitetos, artistas e designers.

Hoje já é possível ver residências, alojamentos estudantis, lojas e hotéis que utilizam contêineres em sua construção. Mas, além das suas características materiais, eles simbolizam o modo que vivemos e onde nos situamos nestes tempos de globalização e mobilidade.

Segundo o etnologista Hartmut Böhme, o contêiner é um “fetiche da era moderna, representando cataclismos, mobilidade e mudança”. Seja como for, a sua utilização permite a associação da modernidade, da utilização racional de espaços e de recursos naturais, além de uma proposta estética revolucionária.

(matéria publicada na primeira edição da Revista Multi da empresa MultiArmazéns)

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