Nos Estados Unidos, país que é considerado modelo para os padrões de consumo ocidentais, apenas 1% dos produtos consumidos continuam sendo utilizados após seis meses da sua compra. Isto equivale a dizer que 99% de tudo que percorre a cadeia produtiva, que se inicia com a exploração de recursos naturais, passa pela manufatura com mão de obra subvalorizada e que consome energia no seu transporte e armazenamento, torna-se lixo em 180 dias.

Trata-se de um modelo econômico linear, que se sustenta através de um constante crescimento do consumo que gera um aumento crescente da extração de matérias-primas e da emissão de poluentes oriundos do processo produtivo, além do impacto ambiental ocasionado pelo descarte dos produtos que jogamos fora. Funcionaria indefinidamente se não fosse pelo detalhe de que habitamos um pequeno planeta com recursos finitos.

Mas foi sempre assim?

Nem sempre. No tempo de nossos bisavós havia uma valorização dos bens que duravam e um instinto de conservação e reaproveitamento de materiais. A tão criticada dificuldade de colocar fora coisas aparentemente inúteis tem suas raízes nesta cultura.

Mas com o fim da II Guerra os Estados Unidos contavam com uma enorme capacidade industrial que necessitava ser mantida em funcionamento, o que não combinava com produtos que eram consumidos apenas uma vez. Então, nos anos 50, o economista e analista de vendas norte americano Victor Lebow redigiu o enunciado que rege a sociedade de consumo até os dias de hoje:

“nossa economia enormemente produtiva exige que façamos do consumo o nosso modo de vida, que transformemos a compra e uso de bens em rituais, que busquemos a nossa satisfação espiritual e do nosso ego no consumo. Nós precisamos que as coisas sejam consumidas, gastas, substituídas e descartadas em um ritmo cada vez mais acelerado”.

Um modelo que foi alegremente adotado por uma sociedade feliz com o tempo de paz e prosperidade que estavam vivendo e que foi amplamente difundido para o restante do mundo através da indústria cultural.

Porém, para manter este sistema linear em crescimento constante, não bastava a sua atuação em novos mercados. Era preciso um incremento de vendas nos já existentes, o que gerou o desenvolvimento de técnicas de incentivo ao consumo com bases tanto na própria concepção dos produtos (obsolescência técnica e programada) quanto nos hábitos dos consumidores (obsolescência percebida).

 

Quais os tipos de obsolescência?

1- Obsolescência técnica ou funcional

Ocorre com a chegada de um novo produto ou tecnologia (quando os CDs substituíram os discos de vinil, por exemplo), quando o produto se torna inútil devido a mudanças em outros produtos no qual ele era utilizado (ex: fichas telefônicas), quando o valor do conserto supera a relação custo/benefício e quando partes essenciais não estão mais disponíveis para a fabricação de um item.

2- Obsolescência programada

Trata-se de uma estratégia na qual o desenvolvimento de um produto já prevê o fim da sua vida útil, seja pelo desgaste programado de suas peças ou pela evolução tecnológica que torna obrigatória a compra de um modelo atualizado.

3- Obsolescência percebida ou perceptiva

Trata-se da redução da vida útil de produtos que ainda são funcionais e úteis através do lançamento de novos modelos com aparência mais atual e agradável, além de pequenas mudanças funcionais.

E o resultado deste modelo?

A escritora e crítica literária argentina, Beatriz Sarlo considera que a sociedade atual é constituída cada vez mais por colecionadores ao contrário, que desvalorizam os objetos assim que os adquirem, o que facilita a cultura do descarte.

Além dos óbvios problemas ambientais e do esgotamento dos recursos naturais ocasionados por um modelo que só se sustenta com mais consumo, existe uma questão não menos importante: o que cada consumidor está conquistando com esta postura? Certamente não é mais felicidade e realização pessoal. O economista Tibor Scitovsky da  compara o consumo desenfreado à ação de drogas, que exigem doses cada vez maiores para o mesmo nível de satisfação.

E eu com isso?

A questão aqui é de uma mudança de mentalidade pessoal, de nos darmos conta de que os esforços de cada pessoa podem ser direcionados para valores mais perenes do que a simples aquisição de produtos que se tornam descartáveis assim que os possuímos.

Acredito que devemos utilizar nossas inteligências para pensar em um novo modelo de sociedade que se sustente em uma premissa que não seja autodestrutiva porque talvez não sejamos nós a pagar esta conta, mas com certeza nossos filhos ou netos vão enfrentar sérios problemas.

E nós seremos lembrados como a sociedade do desperdício absoluto.

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