Hope I die before I get old

Quando escreveu esta frase em 1965 Pete Townshend tinha 20 anos e a sua geração era a primeira a romper com os valores e atitudes dos mais velhos – o que inaugurou uma inédita valorização da juventude, sua estética, sua música e seu comportamento.

Naquela época, as pessoas que se identificavam com esta nova cultura eram quase que exclusivamente jovens com menos de 30 anos. Eles eram filhos de famílias numerosas (a pílula anticoncepcional só foi inventada depois deles terem nascido) e, como a expectativa de vida era baixa, a população idosa era proporcionalmente em muito menor número.

“Hope I die before I get old…” Pete Townshend – My Generation

Mas o tempo foi passando e grande parte destes pioneiros da contracultura se recusaram a envelhecer, proporcionando pontos de contato com as novas gerações que vinham surgindo. Assim tornou-se comum os filhos vestirem o mesmo estilo de roupas, ouvirem as mesmas músicas e passarem por experiências similares às dos seus pais.

É claro que o conflito de gerações continuou a existir, mas em um grau muito menor do que acontecera nos anos 60. Em termos mercadológicos, à medida que o conceito de juventude se expandia, abreviando a infância e avançando sobre a maturidade, o “estilo jovem” passou a ser embalado e vendido para as mais diversas faixas etárias.

Hoje os avanços da medicina ampliaram tanto a expectativa de vida das pessoas que já existe uma nova segmentação etária contabilizada a partir dos 60 anos: idosos jovens, idosos velhos e idosos muito velhos.

No Brasil as pessoas com mais de 60 anos passaram de 8% em 1981para 12% em 2011. A título de comparação, na França foram precisos 115 anos para a proporção de idosos passar de 7% para 14%.

“Old man look at my life I’m a lot like you were…” Neil Young – Old Man

O resultado é que, assim como nos anos 60 surgiu um grande mercado voltado para um novo conceito de juventude, neste início de século XXI temos à nossa frente um terreno fértil para produtos e serviços voltados para uma nova velhice.

Sim, pois os mais velhos, além preservarem várias das necessidades de consumo de quando eram jovens (alimentação, vestuário, transporte, lazer e cultura), ainda contam com demandas específicas relacionadas principalmente à saúde e ao retardamento dos efeitos do tempo.

Embora já exista um marketing incipiente voltado para a “melhor idade”, ainda existem oportunidades inexploradas, principalmente para os segmentos de pessoas com mais anos de vida e com limitações físicas.

Se a mente está a mil e o corpo já não corresponde, há que se dispor de produtos e serviços que complementem ou minimizem estas carências. Exemplos não faltam e vão desde atendentes com treinamento específico, controles remotos simplificados, celulares com botões maiores, embalagens que exijam menor esforço para abrir, rótulos mais legíveis, etc.

E o marketing, dentro do seu papel, também pode cumprir a tarefa quase social de tornar mais aceitos e menos constrangedores produtos como próteses, aparelhos de surdez e fraldas para adultos. Difícil? Pergunte para a sua mãe como eram abordados os absorventes higiênicos no tempo dela.

Este post é um convite à reflexão em duas áreas: uma é evidentemente comercial, pois se trata de um mercado com tendência clara de crescimento e que trará inúmeras oportunidades para quem souber explorá-lo.

O outro aspecto é pessoal: se antigamente havia poucas pessoas de idade e esta fase da vida era relativamente curta, teremos que nos preparar para conviver com mais idosos, exercitando nossa tolerância e sensibilidade, além de nos darmos conta de que vivenciaremos esta realidade por mais tempo que nossos pais e avós.

Talvez atualmente os valores estejam muito voltados para questões efêmeras como o consumo de bens materiais e o esforço desesperado por manter-se esteticamente jovem. Talvez esteja na hora de resgatar a valorização da experiência, a reflexão e a sabedoria  – recursos adquiridos com o tempo e que têm a grande vantagem de serem perenes.
The Zimmers: My Generation

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